Força de vontade

Deixe Ser – parte 2

Uns bons dias depois, olha eu aqui de novo (quase duas semanas). Mas estou aqui, é o que importa.

E continuo sendo. É o que importa.

Como o post anterior ficou redondinho ao meu gosto, vim através deste continuar o assunto de deixar ser, mais especificamente sobre o que eu tenho lutado contra a minha vida inteira. Eu mesma.

Sempre fui extrovertida, hiperativa, um tanto efusiva, impaciente, preguiçosa, procrastinadora, sem meios termos, completamente obcecada ou sem interesse algum. Muito feliz, ou muito triste. Ansiosa (mas não nos níveis que cheguei antes do tratamento). São traços meus. Minha personalidade. Eu. Não sou uma pessoa de meios termos. Não sou uma pessoa que funciona dentro dos padrões da sociedade. Não sou uma pessoa que se encaixa em formas. Nunca fui. E, finalmente, descobri que nunca serei.

Lutei contra mim. Durante o tratamento psicoterapeutico negociei comigo mesma inúmeras rotinas, agendas, formas equilibradas de fazer as coisas, de tocar a vida, e nada funcionou. “Eu sou toda errada”. “Eu não tenho disciplina”. “Eu nunca vou chegar em lugar nenhum desse jeito”. E eu tentava entrar nas formas. Por um tempo até cabia. Mas depois estourava. Como se eu, no meu manequim 50 tentasse entrar numa roupa 46. E eu não via que tava lutando contra mim. Achava que cada tentativa mal sucedida era um sinal para que eu parasse, aceitasse meu destino e fosse virar mendiga, porque nunca ia conseguir alcançar nada sendo desse jeito. Ou que precisava de tratamentos mais intensos, ou medicamentos mais intensos.

Já me disseram que eu PRECISO mudar, porque a vida tem que seguir. Já me deram inúmeras sugestões de como fazer funcionar. Já li inúmeros livros, blogs. Já rezei. Tentei, tentei, tentei, tentei. Tento. Consigo uma semana, e outra semana entro me colapso, em crise. Como se eu gastasse TODA  a energia em uma semana e na semana seguinte eu simplesmente não tivesse mais nada sobrando. A tal da “bad” “baixa de energia” “pico de melancolia”. E eu tentava lutar contra ela. “VAMOS EMILIA, VAMOS VIVER!”. E não conseguia. Me dava um ou dois dias de folga, para recarregar a bateria. Tentava voltar mas a cabeça não funcionava. Aí já sabem o que vem depois disso né? Culpa. Fracasso. Derrota. Vontade de morrer porque “nunca vou conseguir”. Até que meu psiquiatra me disse as mais lindas que eu poderia ouvir “Você pode sim viver assim e ser bem sucedida. Você pode perder um prazo, perder um cliente, andar um pouco mais devagar, mas sim, consegue sim tocar sua vida. Não se force”. E me veio o tapa na cara, a conclusão: ESTAVA LUTANDO CONTRA MIM MESMA.

Deixe ser.

No meu transtorno de ansiedade generalizada, misturei minha personalidade com os sintomas da doença. Até porque é tudo muito parecido. E até porque eu acho que sofro de ansiedade desde criança sem saber. Mas no meio disso tudo, tem eu, Emília. Meus traços, minha personalidade, as coisas que me fazem ser que eu sou, boas e ruins. As coisas que eu admiro em mim. As coisas que as outras pessoas gostam em mim. As coisas que formam a pessoa que eu sou e que eu amo, sim e muito. E nesse meu desespero de “melhorar e seguir em frente e conseguir as coisas” eu lutei contra mim mesma, sem perceber. Eu tentei me anular, tentei me driblar, achando que estava me fazendo bem. Mas não estava.

Era essa vozinha que gritava desesperadamente nas horas da bad. Ela tentava me alertar que eu tava seguindo um caminho que nunca teria fim porque eu estava andando em círculos. Sabe, esses tempos de bad são muito preciosos porque você para tudo que tá fazendo. E se você tiver o ouvido apurado e o coração aberto, você consegue se ouvir. Consegue ouvir seu coração te chamando e te dizendo o que ele precisa. Eu ouvia o chamado, mas gritava de volta “CALA BOCA SUA PREGUIÇOSA! VOCÊ TEM QUE VIVER”. Mas ué, eu tava morta? Não. Estava vivendo do mesmo jeito. Numa pausa, num recolhimento. Num momento extremamente necessário para meu corpo e minha mente. Sabe, são nas horas da bad que eu tenho as maiores inspirações, me sinto mais criativa, raciocino melhor, crio, planejo, entro em contato com o meu lado mais puro, natural. E eu estava tentando lutar contra isso para ser a super mulher super fotógrafa, super atleta, super sucedida. Aí eu entendi né, porque voltava pro mesmo lugar sempre.

Deixe ser.

Venho tentando deixar. Me permitir. Aceitar.

Somos nossos piores críticos, nossos maiores carrascos. Criamos nossos próprios demônios. E agora que estou me redescobrindo, me aceitando, estou começando a conhecer esses demônios. Tenho conversado com eles, aprendido a negociar. E a coisa tem andado.

Me empenho no trabalho por uma semana. Passo uma semana longe dele (obviamente, se não tiver nada realmente importante a fazer, compromissos com outros e tal). Vou uma semana certinha pra academia. Passo outra sem ir. Me alimento corretamente uma semana. Passo outra comendo umas porcarias. Isso era motivo de extrema culpa, estresse, crises.

Deixe ser.

Não vou mentir, me sinto muito culpada ainda, sim, por não funcionar “normalmente” como “deveria”. MAS NUNCA FUNCIONEI! PORÉM SEMPRE FUNCIONEI! Faltava na escola mais do que qualquer pessoa que você vai conhecer, mas me formei, entrei na faculdade (passei em sexto do vestibular ainda mais), me formei da faculdade, tô aqui, seguindo a linha traçada pela normalidade. Por que me considerar uma fracassada? Meu trabalho vai ser mais devagar e e provavelmente vai entrar menos dinheiro do que o trabalho dos outros fotógrafos? Vai. Mas estarei trabalhando e sendo paga do mesmo jeito. E meu trabalho vai ter resultados mais especiais ainda porque, por ser mais devagar, vou poder olhar com mais calma e carinho e criatividade. Meu processo de emagrecimento vai ser mais devagar? Vai. Mas estou emagrecendo do mesmo jeito. E sendo mais devagar, meu corpo tem se adaptado mais fácil às mudanças. Meu cérebro vai continuar funcionando diferente do seu? Vai. Mas ele estará funcionando muito bem, obrigada. E eu estarei aliviada.

Deixe ser.

Não posso me chamar de fracassada. Eu sou uma pessoa persistente. Sou sim. Estive cega para isso por TEMPOS. Me matriculei em várias academias diferentes e parei de ir. Já fui em praticamente todas as nutricionistas da cidade mas parei de seguir a dieta. Já troquei de médico tantas vezes que quase não sobrou mais médico do plano de saúde pra ir. Já tentei vários tipos de trabalhos mas abandonei no meio do caminho. Já iniciei tantos projetos diferentes e guardei na gaveta.

Mas nunca deixei de tentar. Estou na academia desde maio. Mesmo não indo com frequencia, não cancelei minha matrícula. Estou fazendo os acompanhamentos médicos desde o meio do ano passado. Mesmo não seguindo todas as recomendações a risca, tenho me cuidado e retornado à todos eles. Estou oficialmente trabalhando por conta própria desde o meio do primeiro semestre. Mesmo não estando com uma super divulgação, estou me adaptando ao que preciso e tendo sim, meus serviços para fazer e cumprindo meus compromissos. Estou com projetos novos. Mesmo fazendo tudo bem devagar, estou fazendo. Estou fazendo terapia desde 2014. Mesmo ainda tendo várias crises, estou melhorando.

Estou vivendo há 26 anos. Mesmo quebrada, estou conseguindo.

Deixe ser.

E a vida vai ser.

Ps: Falo muito de academia e trabalho porque essas são as questões mais intensas para mim no momento. Mas tudo que faço na vida entra no contexto desse post.

Quero voar.

 

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